Joaquim Nabuco nas Arcadas

Este Artigo foi publicado originalmente na edição número 59 do Informativo Folha Dobrada, da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ano XVI

Em carta ao amigo Godofredo Rangel (1907), Monteiro Lobato (1904) conta que o acadêmico e companheiro de Minarete de ambos, Ricardo Gonçalves, havia saudado Joaquim Nabuco em sua chegada à capital bandeirante. Entusiasmado, afirma que foi um discurso de maravilhosa eloquência. E continua dizendo que outro colega, Lino Moreira (1908), também teria, de uma janela, atirado “para cima de Nabuco um discurso de esmagar”, mas que “engasgou no momento mais agudo da altiloquência perorativa”.

O escritor narrava fatos ocorridos a 13 de setembro de 1906. Nesse dia – aqui em boa hora resgatado para as memórias da Faculdade – a mocidade acadêmica se agitou como nunca para receber Joaquim Nabuco.

E foi justamente nessa ocasião que o maior nome do abolicionismo pátrio se reencontrou com esta Faculdade, a mesma e solarenga Academia que havia deixado 40 anos antes. Era um filho da São Francisco, conquanto, a bem da verdade, aqui não tenha obtido a carta de bacharel.

Ao contrário de Rui Barbosa e Castro Alves, que iniciaram os estudos no Recife e, ambos no ano de 1868, mudaram-se para S. Paulo, Joaquim Nabuco ingressa nas Arcadas, transferindo-se depois para o Recife, em 1869, onde efetivamente cola grau.

E foi nesse período de academia de Direito, quando se abeberou das águas puras do conhecimento, é que podemos lobrigar como se forjou esse grande homem que nos livrou de infamante lauda na história.

São Paulo, naquele tempo ─ estamos em 1866 ─, vivia alvissareiros momentos culturais. A Faculdade de Direito congregava a mocidade sequiosa por cultura. Na política nacional, Zacarias de Góis mantinha-se na presidência do Conselho de Ministros, e a Guerra do Paraguai descortinava-se no sul do país, ora em cenas épicas, ora em dramas sangrentos.

Tão logo chega à terra da garoa, Nabuco funda a Tribuna Liberal, um “jornal político e literário”: “Publica-se uma vez por semana e subscreve-se no escritório desta tipografia”. A referência era à Typographia Americana, uma das muitas firmas que já existiam na efervescente capital. No nº 5 do matutino, em maio de 1867, a linha editorial fica evidente no texto de abertura daquela edição: com pesar, registrava-se que a ampulheta do tempo consignava o segundo ano do assassinato de Abraão Lincoln, o presidente ianque que aboliu a escravatura nas terras de Tio Sam.

E é o próprio Nabuco que conta como foi a empreitada jornalística: “Na situação em que fui para S. Paulo cursar o primeiro ano da Academia, eu não podia deixar de ser um estudante liberal. Desde o primeiro ano fundei um pequeno jornal para atacar o Ministério Zacarias. Meu pai, que apoiava esse Ministério, escrevia-me que estudasse, me deixasse de jornais e sobretudo de atitudes políticas em que se podia ver, senão uma inspiração, pelo menos uma tolerância da parte dele. Eu, porém, prezava muito a minha independência de jornalista, a minha emancipação de espírito; queria sentir-me livre, julgava-me comprometido perante a minha classe, a academia, e assim iludia, sem pensar desobedecer, o desejo de meu pai, que, provavelmente, não ligava grande importância à minha oposição ao Ministério amigo.”

Como se não bastasse, Joaquim Nabuco ainda encontra tempo para colaborar n’O Ypiranga, que, como era comum naquele tempo, apresentava-se como o “Órgão do Partido Liberal em S. Paulo”.

Sobre o acadêmico Nabuco, as historiadoras Ana Luiza Martins e Heloisa Barbuy (1981), no imprescindível Arcadas, informam que, a despeito da bela estampa que era reproduzida nas publicações da época, ele não se esmerava no trajar. Só depois, bacharel, é que teria adotado o figurino impecável que o caracterizou.

Naquele tempo, dominava a Academia, com a sedução de sua palavra e de sua figura, o segundo José Bonifácio (1853). Além deste, Ferreira de Meneses (1866), que, apesar de formado, continuava acadêmico e chefe literário da mocidade, e Castro Alves, o apaixonante poeta republicano.

Nosso Águia de Haia (1870) era também contemporâneo. Mas Nabuco é parcimonioso ao tratar do acadêmico: “Rui Barbosa era dessa geração; mas Rui Barbosa, hoje a mais poderosa máquina cerebral do nosso país, que pelo número das rotações e força de vibração faz lembrar os maquinismos que impelem através das ondas os grandes ‘transatlânticos’, levou vinte anos a tirar do minério do seu talento, a endurecer e temperar, o aço admirável que é agora o seu estilo.”               

Destacando-se entre os colegas, em abril de 1868 Nabuco foi escolhido para saudar José Bonifácio, o moço, quando este regressava à cidade, após a esperada queda do Gabinete Zacarias. No banquete daquela noite, Castro Alves recita o “Navio Negreiro”, deixando os presentes, já antes maravilhados com a maviosa oração de Nabuco, num completo estado de nirvana.

No mesmo ano, Almeida Nogueira (1873) informa que apareceram pela cidade alguns pastores evangélicos, ardentes na propaganda das doutrinas de Lutero e dispondo para sua missão de valiosos recursos intelectuais. Travou-se um debate, tendo como opositor o estudante José Rubino de Oliveira (1868), que, depois, foi lente da Academia e que, sucumbindo a uma moléstia, cedo tombou. Rubino procurou demonstrar que somente a igreja católica é uma, e que, ao contrário, são muitas as seitas protestantes. Em certos tópicos de seu inflado discurso, exibiu alguns conceitos mordazes com referência à parte adversa. Provavelmente tendo presenciado a cena, já que era calouro na Faculdade, o autor das Tradições e Reminiscências conta-nos que essa descortesia foi objeto de grave protesto do terceiranista Joaquim Nabuco, em nome da liberdade de pensamento.

Acerca da religiosidade, é interessante ainda notar que se trata de um ponto muito lembrado por seus estudiosos. Nabuco foi acometido de certa apostasia ao transpor os umbrais da Faculdade:“Quando entrei para a Academia, levava a minha fé católica virgem; sempre me recordarei do espanto, do desprezo, da comoção com que ouvi pela primeira vez tratar a Virgem Maria em tom libertino; em pouco tempo, porém, não me restava daquela imaginação senão o pó dourado da saudade…”

Não eram, evidentemente, os pecadilhos acadêmicos os culpados por esse distanciamento da fé de Nabuco. O responsável por isso era Ernest Renan, o inspirador dos positivistas, e que tanto o influenciou. Mas o fato é vinte e tantos anos mais tarde, em Londres, Nabuco se reencontra com o catolicismo.

Em fins de 1868, deixa São Paulo, e já no ano seguinte inicia o penúltimo período de Direito no Recife. Ali se forma e inicia uma iluminada carreira pela política e pela diplomacia. Aliás, torna-se o primeiro embaixador brasileiro nos EUA. E, não sem muitas ambições, queria que o Brasil fosse o grande interlocutor dos Estados Unidos com a América Latina.

E tudo caminhava para isso, tanto que, em novembro de 1905, o Brasil foi escolhido para sediar a terceira Conferência Pan-Americana, a qual se realizaria em julho do ano seguinte. A conferência ocorreu entre 25 de julho e 27 de agosto de 1906, no Palácio Monroe, construído no Rio de Janeiro exclusivamente para o evento.

Terminadas as obrigações protocolares, várias recepções se seguiram. Mas Joaquim Nabuco – nesta que, depois saberíamos, seria sua derradeira viagem ao país – queria visitar um lugar de muito significado: queria voltar aos bancos acadêmicos que o viram florescer na primavera da existência.

Assim se fez. Em 12 de setembro, Nabuco embarca no noturno rumo a S. Paulo, acompanhado de grande comitiva: ministros, diplomatas e professores. Para ir ao encontro deles na última escala antes do destino final, em Mogi das Cruzes, preparou-se uma comissão do Centro Acadêmico Onze de Agosto. Capote Valente (1906), René Thiollier (1906), Antão de Souza Moraes (1908) e Nereu de Oliveira Ramos (1909) estavam a postos quando o rápido que trazia o diplomata chegou àquela cidade, às 7h20. Joaquim Nabuco, com fidalguia, retribui a gentileza dos jovens que foram até lá recebê-lo, convidando-os a tomar lugar no carro especial onde viajava a comitiva. E os vagões seguiram para São Paulo.

Na capital paulista, autoridades, pessoas gradas, lentes da Faculdade, acadêmicos e grande massa de pessoas já tinham se dirigido à estação do Norte a fim de saudar Nabuco. Às 9h40, com a banda de música da Força Pública entoando uma marcha, o comboio entrou na gare.

Ao avistarem a inconfundível figura de Nabuco, seguiu-se prolongada salva de palmas. Jorge Tibiriçá colocou seu landau presidencial à disposição do ilustre hóspede. Vários outros carros vinham na sequência, e os estudantes seguiram a pé acompanhando o préstito.

Aqui e ali, quando o automóvel que transportava Nabuco ensaiava uma parada, um grupo de estudantes logo o cercava. E ao longe podiam ser ouvidas ruidosas palmas, entrecortadas de calorosos vivas. Num destes momentos, assumindo a sacada da TypographiaRosenhain& Meyer, falou o inteligente acadêmico Ricardo Mendes Gonçalves, o mencionado companheiro de república do escritor Monteiro Lobato.

Ele começa dizendo que toda aquela mocidade fremente e delirante que ali se conglomerava para dar-lhe as boas-vindas, conhecia-lhe perfeitamente a grande personalidade, porque não havia brasileiro que, volvendo os olhos para a história do nosso povo no último quartel do século anterior, não se tivesse detido ante a sua figura proeminente que ali se avultava, com intenso fulgor, num destaque soberbo, sintetizando admiravelmente toda a grandeza de nossa raça. E finaliza o inspirado jovem, com sua oratória cativante, dizendo que a eloquência de Nabuco foi a tuba sonora que conclamou para a luta os guerreiros dispersos do abolicionismo.

Nabuco falou em seguida, da sacada da RôtisserieSportsman – construída pelo empresário norte-americano Percival Farquhar e para onde havia levado o chef da cozinha do Elysée Palace Hotel, de Paris, Henri Gallon. Nabuco disse que voltava quarenta anos no tempo, quando a mocidade de S. Paulo prestava homenagens aos grandes homens da pátria, aos heróis da Guerra do Paraguai, ao poeta Castro Alves, a José Bonifácio, e a tantos outros nomes que sempre despertaram entusiasmo no coração dos acadêmicos. Diz mais, diz que as honras que recebia dos moços eram de preferência para os princípios que então predominavam, e não propriamente para o orador que os defendera. E termina levantando um viva aos estudantes da academia de S. Paulo.

Neste mesmo dia 13 de setembro, às 13h40, Joaquim Nabuco retorna, enfim, à Faculdade de Direito de S. Paulo. O auditório lotado para ouvi-lo. Estão ali, entre tantos, o diretor, Vicente Mamede de Freitas (1855), e o presidente do Onze de Agosto, Cesar Lacerda de Vergueiro (1907). Aberta a sessão, tem a palavra o estudante Victor Konder (1907) para saudar o ilustre brasileiro. O acadêmico catarinense assevera que Nabuco voltava à sua Academia como o stratiota vitorioso voltava ao lar querido, para dizer aos seus que se bateu e se bate ainda com a mesma fé, a mesma honra e o mesmo valor pela santa causa que ali aprendera a amar, e que dali levara quando, moço sonhador, partira.

Na sequência, Joaquim Nabuco assume a tribuna, não deixando dúvidas de que foi a Velha e Sempre Nova Academia que lhe acendeu a centelha do combate. Extrai-se de sua fala o trecho abaixo que, para registro imorredouro, merece constar em placa a ser chumbada numa das arcadas que circundam o páteo.

“Os meus votos são para que essa atração misteriosa que a Academia exerceu sobre todos os que nela receberam as primeiras noções do Direito, isto é, as noções de solidariedade humana, continue sempre a mesma e que vós, que vos estais formando nela, possais, como nós, olhar para a luminosa auréola que ela irradia, nunca vos esquecendo de que a mais bela fonte do Direito é e sempre será o ideal.”

Joaquim Nabuco e o Diretório Acadêmico XI de Agosto, da Faculdade de Direito de São Paulo, 1906. Da esquerda para a direita, sentados: Fernando Lara Palmeiro, César Lacerda de Vergueiro, Joaquim Nabuco, Heitor de Moraes, João Quartim Barbosa; em pé, na primeira fila: René Thiollier, Epaminondas Chermont, A. Flores Júnior, Lino Moreira, Tito Lívio Brasil, Nereu O. Ramos, Adolfo Konder; e no alto: Victor Konder, Firmo Lacerda de Vergueiro e Eduardo Vergueiro de Lorena.

Em São Paulo na manifestação dos estudantes, 13 de setembro de 1906.

Joaquim Nabuco em carro aberto acompanhado por grupo de estudantes, em frente à Faculdade de Direito de São Paulo, 1906.

Este Artigo foi publicado originalmente na edição número 59 do Informativo Folha Dobrada, da Associação dos Antigos Alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ano XVI

Miguel Matos, advogado, editor do informativo jurídico Migalhas, Associado Benemérito da Associação dos Antigos Alunos da FDUSP (2007)