O Migalhas

O Migalhas é o primeiro veículo digital brasileiro especializado na cobertura do Judiciário. Foi criado em 2000, como um informativo que era disparado por e-mail gratuitamente para milhares de assinantes. Dois anos depois, virou um portal de notícias. Hoje, a empresa congrega diferentes negócios.

Além do site, que alcança 1,5 milhão de pessoas diariamente, e da newsletter, que chega a 600 mil leitores cadastrados, o Migalhas é composto por um canal de web TV, uma produtora de eventos, uma editora com 120 títulos publicados e uma rede profissional que conecta 40 mil advogados polvilhados pelo Brasil.

O Migalhas começou como o próprio nome, despretensioso. No início, era uma lista de e-mail para amigos com as principais notícias do dia acompanhadas de uma breve análise. “Eu acordava muito cedo, lia os jornais, ia separando e enviando as matérias que podiam interessar aos outros”, relembra Miguel. Com o passar do tempo, mais pessoas foram pedindo pelo conteúdo e o número de destinatários, crescendo. O envio de notícias, então, passou a tomar cada vez mais tempo. E Miguel decidiu que era hora de transformar o passatempo em atividade profissional. Comentou sobre a decisão com o pai, o juiz de Direito Carlos Alberto Bastos de Matos. E assim surgiu o Migalhas:

“Recém-formado em Direito, titubeante em relação ao mundo que se abria, comentei com ele a ideia. Qualquer outro imaginaria se tratar de mais um devaneio juvenil. Meu pai, não. Incentivou-me. Entretanto, faltava o nome. Quando o primeiro número, em 13 de novembro de 2000, iria sair com outra denominação – e que fatalmente não traria êxito ao trabalho – toca aquele que depois seria intitulado o ‘telefone vermelho da Alta Direção’, só usado para ocasiões muito especiais. Do outro lado da linha, Dr. Carlos diz: coloque aí ‘MIGALHAS’. Assustei-me com o nome, assim como todo leitor deve ter se assustado quando ouviu se tratar de um informativo para o público jurídico. E com a autoridade jurisdicional repetiu: coloque aí, é “Migalhas” o nome. Assim foi feito.”

Em uma salinha de escritório de 20 metros quadrados em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, saía na madrugada a primeira edição do Migalhas. Além de Miguel, a sala também tinha um computador e uma linha telefônica que servia de conexão para a internet. O trabalho começava cedo. Às quatro horas da manhã, o empresário chegava ao escritório para acessar sites de notícias, compilar o que havia de mais importante e montar o informativo, com um resumo e uma análise sobre os principais assuntos. “Começar cedo era importante porque a internet discada, na madrugada, era mais rápida”, recorda Miguel.

As pílulas de informação aportavam no computador dos leitores, por e-mail, nas primeiras horas da manhã. No primeiro mês, a audiência era de apenas 20 pessoas. No segundo mês, já chegava a algumas centenas. E ao final do primeiro ano de vida, o Migalhas já alcançava mais de uma dezena de milhares de leitores. Esses, por sua vez, interagiam com o veículo. Eles passaram a enviar cartas e e-mails que eram reproduzidos no informativo. Assim, nascia a comunidade dos migalheiros, como é chamado o público fiel. Uma verdadeira confraria jurídica online.

7 MILHÕES DE PAGEVIEWS MENSAIS
1,5 MILHÃO DE PESSOAS ALCANÇADAS DIARIAMENTE
600 MIL LEITORES CADASTRADOS
784 MIL SEGUIDORES NO FACEBOOK
164 MIL SEGUIDORES NO FACEBOOK
70 MIL CADASTRADOS NO WHATSAPP
56 MIL SEGUIDORES NO TWITTER
550 PATROCINADORES
120 LIVROS PUBLICADOS
40 EVENTOS REALIZADOS

O negócio de Miguel Matos deu certo

Com a expansão da newsletter, foi se cristalizando na cabeça de Miguel que era hora de crescer e abrigar o informativo Migalhas em um site. “A confirmação do plano veio quando os escritórios de advocacia, que se informavam pelo Migalhas, demonstraram interesse em apoiar a expansão”, relata Miguel. “Aí eu soube que o negócio tinha dado certo”, afirma.

Ao final de 2002, o Migalhas virou um portal apoiado por dezenas de parceiros. As pílulas seguem sendo publicadas e enviadas por e-mail. Mas, desde então, além delas, o site também publica reportagens e matérias jurídicas, notícias exclusivas, artigos assinados, comentários de leitores, entrevistas e divulga eventos. Novas seções também foram criadas. Na seção “Gramatigalhas”, por exemplo, é possível tirar dúvidas sobre o léxico jurídico e gramática em geral.

Um dos serviços mais usados por advogados de todo o Brasil é o “Correspondentes”. Pioneiro na área, ele conecta 40 mil advogados por meio de uma equipe treinada para atender, de forma ágil e eficiente, todas as solicitações de quem procura correspondentes jurídicos em todos os cantos do país.

“Em 2003 contratei a primeira funcionária. Hoje, já são 50 profissionais trabalhando lá”, conta Miguel. De lá para cá, o Migalhas se expandiu e hoje ocupa um moderno prédio de 1.500 m2 em Ribeirão Preto, uma das cidades mais desenvolvidas do interior paulista.

Do digital para o papel

Veículos impressos tradicionais costumam fazer o caminho da migração para a internet. Já o Migalhas fez o percurso inverso. O portal de internet também virou editora. “Vimos que havia uma demanda dos nossos apoiadores para publicar livros e passamos a fazer isso”, diz Miguel Matos. A Editora Migalhas não publica livros técnicos de direito. Faz coletâneas de grandes escritores e advogados brasileiros, publica novos títulos assinados por juristas e advogados e livros de história. Ao todo, já foram impressos 120 títulos diferentes. Um deles, o Migalhas de Rui Barbosa, por exemplo, teve trechos seus usados no preâmbulo do pedido de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff.

O mais recente livro do ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, também foi publicado pela Editora Migalhas. O título, Constitucionalismo Democrático, expõe as origens e pontos fortes do chamado novo direito constitucional ou neoconstitucionalismo.

O futuro do Migalhas segundo Miguel Matos

Uma das apostas do portal é a expansão das operações da TV Migalhas. O canal pela internet publica, entre outras coisas, reportagens e pequenos documentários, resumos das notícias veiculadas pelo portal e cobre eventos jurídicos. Criado em 2005, mesmo ano em que foi lançado o Youtube, a TV Migalhas também foi mais uma das antecipações do publisher ao que viria a ser tendência. “As pessoas ainda não viam na internet um lugar para postar vídeos sobre assuntos sérios. Nós fizemos isso e deu certo”, afirma Miguel Matos. “Os vídeos são o tipo de mídia que mais vai crescer na internet”, aposta.

O portal Migalhas está presente em diferentes redes sociais. Hoje, o Migalhas chega aos migalheiros pelo Facebook, Instagram, Twitter, LinkedIn e até pelo Whatsapp. “A nossa aposta para o futuro é investir em jornalismo de qualidade”, afirma Miguel. Segundo o publisher, esta é uma das principais razões do sucesso do empreendimento. “Quando surgimos, passamos a cobrir o Judiciário de um jeito que ninguém fazia no país, conhecendo muito sobre o assunto e sabendo como traduzi-lo de maneira interessante na internet”, diz.

Durante o caso do Mensalão, a cobertura do Migalhas se destacou por conta desse alto grau de especialização. O site passou a ser fonte de consulta também para jornalistas e formadores de opinião de outros veículos. “Foi o momento em que saímos da nossa bolha e passamos a conversar com outras audiências”, recorda Miguel, que passou a dar entrevistas e fazer análises sobre as decisões dos ministros para outros sites e jornais.

Fazer jornalismo sobre o Judiciário confere ao Migalhas algumas características diferentes em relação a outros veículos de imprensa. O portal não tem por hábito publicar furos de reportagem sobre casos que correm sob sigilo de Justiça. “Pra nós seria um contrassenso fazer isso, vai contra o DNA do Migalhas”, explica. Mas o publisher faz críticas severas ao comportamento assumido por membros da Justiça. “Juiz não é editor. Não pode censurar, proibir de publicar”, diz Miguel.

As migalhas favoritas

São muitos anos de migalhas e histórias. Mas Miguel tem algumas entre as prediletas. A mais recente é a entrevista com o ex-primeiro ministro português José Sócrates, que repercutiu em diferentes veículos brasileiros. O político português rebateu acusações do ministro da Justiça brasileiro, Sergio Moro. Num evento em Portugal, Moro afirmou que “é famoso o exemplo envolvendo o antigo primeiro-ministro José Sócrates [na Operação Marquês], que, vendo à distância, percebe-se alguma dificuldade institucional para que esse processo caminhe num tempo razoável, assim como nós temos essa dificuldade institucional no Brasil”.

Sócrates, por sua vez, acusou Moro de ser parcial na Operação Lava Jato. “O que o Brasil está a viver é uma desonesta instrumentalização do seu sistema judicial ao serviço de um determinado e concreto interesse político. É o que acontece quando um ativista político atua disfarçado de juiz. Não é apenas um problema institucional, é uma tragédia institucional”, afirmou.

Ministros da Justiça costumam aparecer com frequência no site. Uma das histórias mais saborosas contadas pelos migalheiros assíduos é sobre um carro do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos. Em 2003, o Ômega blindado de Bastos foi roubado. Durante os meses que se seguiram, o informativo tratou o caso com ironia, lembrando que nem mesmo a autoridade máxima da justiça nacional estava imune às investidas dos criminosos e à inépcia da polícia para recuperar o carro.

O Migalhas chegou a publicar cartas em portunhol, assinadas pelo próprio Ômega. Nelas, o veículo contava sobre suas aventuras em solo paraguaio. Dizia uma das missivas: “Fuí vendido para un agricultor que posee una enorme plantación de la olorosa yerbaacáen Pedro Juan Caballero. Gané placas nuevas y ahora me siento feliz. Todas las tardes bebo tererê al sonido de bellísimasguaranias.” Três anos depois, em 2006, o diretor do Migalhas teria localizado o veículo e o enviou à sede do Ministério da Justiça, em Brasília. Rebocado por um guincho com o logo do Migalhas, o Ômega (todo batido) finalmente voltou ao seu antigo proprietário.

Outra história controversa que Miguel rememora é a do ranking dos custos processuais. Anualmente, o Migalhas publica a lista. Em janeiro de 2010, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte aparecia em último lugar, com os custos processuais mais baixos do Brasil. Na prática, isso significa facilitar o acesso à Justiça, principalmente àqueles com baixo poder de renda. Algo para se orgulhar, certo? Não foi assim que o então presidente do Tribunal entendeu. Para ele, ter a Justiça mais barata, ou seja, mais acessível do país, soou como um demérito. Resultado: o magistrado quis dobrar a tabela de valores de custas dos juizados potiguares. “Os advogados de lá me ligavam desesperados pra comentar o caso. Foi mesmo um absurdo”, afirma Miguel.