O poeta Jorge Falleiros e a internet

Artigo publicado originalmente no Jornal de Franca, em 18/01/2018

Vivemos o temor de que as chamadas “fake news” causem estrago na internet, sobretudo se influenciarem os pleitos eleitorais que se avizinham em 2018.

A par do combate às notícias falsas, ressurge a discussão acerca do impropriamente denominado “direito ao esquecimento”. E o que vem a ser isso?Na verdade, é a vontade que as pessoas têm de voltar a ser anônimas. Ou seja, algo impossível depois da criação das redes sociais. E não só é impossível, como sua tentativa é deletéria para a história. E isso porque a história não se faz hoje. Não se sabe de antemão o que será histórico, o que terá valor como tal.

Pois bem, feito este nariz de cera, quero narrar uma auspiciosa vicissitude que só foi possível graças ao advento da internet, e também porque não apareceu ninguém ainda para deletar a história.

Volto aos anos 80, quando minha família se mudou para a agradável e acolhedora Patrocínio Paulista. Meu saudoso pai, Carlos Alberto Bastos de Matos, assumiu ali a comarca como juiz de Direito titular, cargo que ocupou por duas décadas.

Tão logo chegou à cidade, Doutor Carlos, como reverenciosa e carinhosamente era chamado pelos jurisdicionados, foi se assenhorear da cultura local e encontrou, ainda ecoando na voz dos antigos moradores, surpreendentes versos de um poeta da terra. Era Jorge Falleiros, que pouco viveu: morrera aos recém completados 26 anos de idade, em 1924, então já há mais de meio século.

Garimpando as estrofes perdidas, em 1990, com o apoio do então prefeito José Milton Falleiros –  no tempo em que os alcaides se preocupavam com a cultura local –, Doutor Carlos fez publicar os versos de Jorge Falleiros, os quais só haviam vindo a lume uma única vez, numa pequena edição póstuma: “Nirvana”, de 1925.

No prefácio que faz à segunda edição, Doutor Carlos conta que da obra original só havia um exemplar na cidade e, mesmo assim,  incompleto.

Nos mistérios da vida, Doutor Carlos nos deixou precocemente, e não pôde ver o quanto a internet iria nos ajudar no resgaste histórico.

Para começar, os sebos, colocando seus acervos na grande rede, permitiram-me adquirir três raríssimos exemplares de “Nirvana”. Lembro-me de que, ao receber o livro pelo correio, comprado, como dito, num destes alfarrábios on-line, imaginei o quanto meu pai teria ficado emocionado ao compulsá-lo.

Mas não é só. Pesquisando mais sobre Jorge Falleiros, descobri em jornais amanhecidos que suas poesias eram cantadas pelo Brasil em festejadas reuniões literárias. Declamadoras famosas nos anos 20 e 30, como Marilia Escobar Pires e Angela Vargas, faziam apresentações no Rio de Janeiro e em São Paulo, tendo no programa, ao lado de poesias de Olavo Bilac e de Guilherme de Almeida, os versos do nosso poeta de Patrocínio Paulista.

E como são muitos os caminhos da internet, encontrei numa vetusta edição do Diário de Pernambuco (19 de julho de 1921) a menção à “Novella Semanal” – uma edição literária que sobreviveu apenas treze fascículos – fazendo referência a um trabalho de Jorge Falleiros, que estaria na edição nº 6. E como encontrar essa “Novella”? Também na internet, claro. Encontrei-a devidamente digitalizada, a partir da biblioteca que o saudoso José Mindlin deixou para a USP.De fato, lá estava.Para minha surpresa, era um conto de Jorge Falleiros intitulado “Preço de Sangue”.Trata-se, quiçá, da única obra em prosa do famoso poeta. Vê-se no texto o profundo cuidado do autor com as palavras e seu uso. Mostra uma preocupação social muito grande, e não deixa de ser uma crítica profunda aos costumes da época. Quando da publicação, o poeta contava 22 anos.Apesar de sua tenra idade, era já um escritor maduro, lançando mão de descrições inebriantes. E, ao contrário de seus versos, marcados pelo lirismo romântico, sua prosa denota o realismo que se experimentava na época.

Mas as pesquisas não pararam por aí. Com efeito, encontrei, numa edição de uma revista infantil ilustrada, chamada “O Beija-Flor”, e editada em Petrópolis/RJ, datada de julho de 1915, a menção a uma carta do poeta, ainda estudante em Batatais, referindo-se a dois trabalhos seus. Rastreando outros exemplares, localizei, então, duas poesias inéditas. A primeira, conquanto elaborada na primavera da existência, aos 16 anos, revela a tristeza e soturnidade que iam cedo toldar a existência do festejado poeta. Ela se intitula “No túmulo de uma criança”. A outra, bem mais pueril, fez-lhe ganhar o 1º prêmio do torneio literário promovido pela mencionada revista fluminense e se chama “No Natal”.

Consciente da importante “descoberta” literária, trago aqui, para registro imorredouro o conto e as duas poesias.

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PREÇO DE SANGUE

A antiga fazenda do Domingos Nunes agacha-se num descampado, esparrimada nos flancos de um declive que verte para um riacho.

Tem o aspecto senil duma tapera.As paredes denegridas, o madeiramento pesado, o telhado enegrecido e escabroso dão àquela decrepitude arquitetônica os ares torvos de alguma cousa morta.

Para os fundos se mostra o quintal, no verde fosco das laranjeiras a enfeitar debalde sua velhice com as flores de noivado que todas se desprendem à mais fagueira viração da tarde. Na frente, o curral de aroeira fincada e o chão duro do terreiro. Junto da porta, um montão de pedras à guisa de escadaria. A porta, muito grossa e perra nos seus gonzos ferrugentos, dá acesso a uma sala desguarnecida e vazia. Apenas ali se notam uma grosseira mesa de cerne, dois bancos duros de taboa e uns arreios de couro, amontoados a um canto.

A uma janela lateral, um velho magro, Domingos Nunes, estava olhando para os lados do paiol. Um pouco além, subsistiam ainda uns destroços de senzala.

A tarde declinava. Domingos Nunes, como se o invadisse uma tristeza imensa, à vista do paiol arruinado, arrancou-se dali e, arrastando os passos pelo assoalho de grossas pranchas de peroba, enveredou para o salão, onde outrora as africanas laboriosas trabalhavam nos intérminos dias de calor. Encostado duma banda, permanecia inerte o tear. Rocas desmanteladas jaziam para os cantos. No meio dos trastes abandonados, em desordem, como os destroços dum naufrágio, sobrenadava uma argola de ferro com duas hastes como chifres, trazendo guizos nas pontas. Ao modo de canga chinesa, ia ao pescoço das fujonas que costumavam varar mato. A parca luz, que entrava pela única janela aberta e também encarada pelo corredor que ia ter à cozinha, dava a tudo uns ares de sombra e de mistério. O vasto compartimento oferecia saída a outros aposentos, cujas portas, fechadas desde muitos anos, enclausuravam almas penadas e morcegos que atordoavam a casa, pela noite a dentro, com uma algazarra infernal. Junto da escada de madeira, lisa

pelo uso constante, arrumada à parede, Domingos Nunes parou meditabundo, como atando a ideia da escada às outras que tivera à janela, em frente do paiol. Ali estava ainda no mesmo lugar a maldita escada, aquele instrumento de suplícios para as pobres cativas; ligadas de bruços a ela, dos pés à cabeça, como numa cruz, suportavam entre gemidos a brutalidade da pancadaria. Junto do moirão, aquém da senzala, ainda se achava a sepultura anônima daquela mestiça que sucumbira aos golpes do azorrague. Domingos Nunes chamou para dentro, na sua voz asmática:

— Escrava!

Outra voz também asmática respondeu:

— Sinhô…

E a boca do corredor assomou uma anosa crioula, meio coxa:

— Veva!

— Sinhô …

— Ainda resta lenha para o lume?

— Sim, sinhô…

— Leva também esta escada para queimar.

— Sim, sinhô…

Saindo dificultosamente o traste, Genoveva murmurava entre dentes, benzendo-se:

— Credo! Sinhô parece capeta! Raias de sangue nos olhos! Sinhô não tarda morrer! . . .

Veva estava livre, mas em Domingos Nunes era tão entranhado o sentimento daquela propriedade que não a tratava como tal. Depois, ela mesma tinha, por instinto e hábito, Índole por demais servil; no dia 13 de maio de 1888, rejeitara a liberdade. Prezava-a menos do que a honra e está lhe fora extorquida por aquele homem cruel. Pouco se lhe dava agora passar o resto da vida sob o seu jugo. Por orgulho e por despeito renegara aquela liberdade tardia. Os filhos que nasceram da sua desonra e das suas dores, ela os vira partir, um a um, nos balaios, em cargueiros, vendidos como vis animais. A sede de fortuna fizera do seu senhor um desumano. E não fora só ela a vítima; todas as suas companheiras de escravidão foram também sócias do mesmo infortúnio. Por tudo isso, por toda aquela desonra e por toda aquela revolta que sentia dentro d’alma, Veva sardonicamente preferira ficar junto do déspota, alimentando a esperança de se vingar um dia. Vingar-se terrivelmente, povoando de fantasmas e assombrações o fim da vida do ve

lho fazendeiro. Ainda na execução do seu plano sinistro lá estava ela carcomida pelos anos, emperrada pela dor do reumatismo que lhe torturava os ossos. Sentia dentro em si a morte!

Também o velho parece que a percebia, a negra parca, enganchada nos seus ombros.Naquela tarde vieram-lhe certos caprichos de quem vai morrer. Havendo escutado o gemido cavo do monjolo, a mourejar, pilando arroz, fê-lo parar. Tendo visto pendurado na varanda o sino que em outros tempos servira para reunir, em determinadas horas, o seu harém negro, desprendeu-o dali a muito custo e o depositou a um canto. Aquele sino, às vezes, alta noite começava a badalar tristemente.Nessas horas, Domingos Nunes ficava transido de agonia.Todo barulho estranho o congelava de susto.Já era noite fechada quando ele se recolheu ao quarto junto da sala.Acendeu a candeia, abriu a janela e derreou-se no parapeito.Sofria de insônia. Antes de conciliar o sono não arredava dali, a olhar os astros como um cão de guarda. Naquela noite estava preocupado com recordações dolorosas. Depois de ficar assim uma hora esquecida, a absorver a aragem e o silêncio, começou a sentir um tremor esquisito nas carnes. Súbito pareceu-lhe ouvir uma voz semelhante à sua dizer-lhe ao ouvido o seu nome:

— Domingos Nunes!

Todo trêmulo e reprimindo a respiração, despregou-se da janela e se recostou à parede como temendo que uma alma do outro mundo o assaltasse pelas costas. É que, na pressão do medo que sentira, não viu que fora ele mesmo quem pronunciara o próprio nome. Mas, como reinasse depois um silêncio de pedra, começou a recuperar a tranquilidade, imaginando:

— Foi o vento…

Teve então uma ideia que já o salvara em iguais conjunturas, para dissipar as sombras do espírito: — abrir o seu baú — porquanto nada o distraía mais do que mirar e remirar, contar e recontar o dinheiro que rendera a venda dos seus filhos. Foi à canastra, tirou o baú, aproximou a candeia, espalhou sobre a cama os pacotes embolorados de papel-moeda. E contou mentalmente:

— Onze maços de cinco contos de réis!

E acrescentou depois duma demora:

— Tudo preço de sangue!…

Nesse mesmo momento explodiu lá dentro a sarabanda das almas perdidas. Gemidos, vozerio, pancadaria, ranger de ferros. Domingos Nunes, pálido de espanto, pôs-se a rezar. O alarido cessou por um instante. Foi quando ele ouviu no fundo do grande compartimento das escravas um arrastar vagaroso de chinelas. E aqueles passos caminhavam para ele, trazendo através da casa uma voz horrível a engrolar uma língua estapafúrdia que ele não entendia. Pareceu-lhe conhecer a voz, que era de mulher, mas a linguagem como era estranha! devia vir do inferno… Tendo atravessado o vasto salão, parou à sua porta, monologando muito tempo naquela monotonia desconcertada do sotaque africano. Se entrasse! Mas não entrou. Calou-se e voltou sobre os passos, ao arrastar sossegado dos chinelos.Houve um silêncio.Domingos Nunes tremia.Tomado de sobressalto arrebanhou a dinheirama no baú e meteu tudo no esconderijo. Depois, agarrando a candeia, saiu do quarto. Viu ainda na escuridão um vulto, como sombra envolta na sombra, embocando pelo

corredor. Não gritou pela escrava: teria, medo da sua própria voz. Apegou-se mais à claridade que tinha nas mãos, como se aquela luz mesquinha desmanchasse todos os espectros. Cobrou ânimo e avançou. Temendo sempre pelas costas, sondava, com os olhos esbugalhados, as trevas em redor. Chegado ao quarto de Veva, fez um esforço e chamou:

— Veva!

— Sinhô …

— Vem para o meu quarto … traz a tua cama.

A negra, temerosa, agarrou o colchão de palha e seguiu o seu senhor. Em chegando, estendeu a enxerga no assoalho e deitou-se.

— Veva!

— Sinhô …

— Eu vou morrer?

— Não morre, não, sinhô…

Domingos Nunes estirou o corpo sobre o leito, ao estalar dos ossos, como um cadáver. Reinou a solidão. Fora a água da bica querelava sem descontinuar, despejando-se no poço do monjolo. À noite já ia muito adiantada quando um chamado roufenho interrompeu o silêncio:

— Veva!

Ela dormia. Chamado mais forte:

— Escrava… Escrava …

— Sinhô…

— Vai àquela canastra, no canto.

Ela cumpriu a ordem, levantando-se devagar e  receosa.

— Arranca fora o baú… Traz a candeia.

A negra se aproximou com o baú e a candeia.

— Abre!

Escancarou o baú, apalermada ao ver tanta riqueza de papel pardacento…

— Põe no chão e ateia fogo!

E ele acrescentou como uma ideia fixa:

— Tudo preço de sangue…

A velha africana começou a chorar. Lembrou-se dos filhos, lembrou-se de tudo… E soluçava:

— Não queime, não sinhô, não queime, não…

— Obedece!

A esse mando imperioso, Genoveva dobrou a cerviz. Numa longa obediência e numa longa servidão habituara-se a servir e obedecer.Fez um esforço supremo e achegou o lume aos pacotes embolorados e sujos.

Um clarão sangrento iluminou o quarto.

Domingos Nunes, inteiriçado no seu catre, estendendo os braços ao estalar dos ossos, os olhos arregalados para o teto, resmungava numa anciã desesperada:

— Preço de sangue…

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NO TÚMULO DE UMA CRIANÇA 

 

Ela era criança de tenra existência:

Dois anos de vida contava somente.

Na face rosada trazia inocência,

Nos seus lábios rubros – sorriso contente.

 

Morreu… não morreu, mas abriu contentinha

As asas e foi lá com os anjos morar:

Sua alma inocente qual alva pombinha

Voou pros empíreos, seu berço, seu lar.

 

E os vivos, mui tristes, aos dobres do sino

Levaram-na envolta num branco sudário

E foram depô-la no seu pequenino

Sepulcro risonho, porém, solitário.

 

Uns dias passados eu fui visitá-lo,

Tristonho, a pensar na gentil criatura.

Um lírio nascera no túmulo que falo

Com flor tão branquinha qual sua alma pura!

 

Batatais, julho de 1915.

Jorge Falleiros

Aluno do Colégio São José

 

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NO NATAL

 

(1º PRÊMIO DO TORNEIO LITERÁRIO)

 

… Lá na rua ia passando

– Qual bando de borboletas

Um mui gracioso bando

De crianças irrequietas.

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Falavam das flores belas,

De beleza que seduz,

Que seriam, todas elas,

Para o Menino-Jesus.

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O Genny quis ir também

Procurar flores, então,

E logo à sua Mamãe

Lá foi pedir permissão.

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Em breve achou-se no meio

Daquele bando inocente;

Já corria sem receio

Pelo prado florescente.

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Colhem tantas, tantas flores,

Fez um bouquet muito lindo

Ornado de várias cores;

Levava-o ele, sorrindo.

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Porém, veio um forte vento

(Ah! Vento mais despiedoso!)

Que desfolhou num momento

O seu bouquet tão mimoso.

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Genny, então, chorou tanto!

Coitadinho! Com razão…

E oh! que foi nobre o seu pranto

Nascido no coração.

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Chegado em casa, porém,

Sua mãe o consolou,

(Era tão Boa a Mamãe!)

E Genny não mais chorou.

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Ela assim meiga dizia

Pra lhe dar consolação:

– Os outros com alegria

Palmas, flores levarão;

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Tu levarás, todavia.

As flores do coração

E uma palma de valia

– A palma da gratidão.

 

Batatais – dezembro de 1915

Jorge Falleiros

Aluno do Colégio São José